понедельник, августа 10, 2009

Moscou Feliz (III/III)

"A garota Moscou Chestnova já estava no orfanato há dois anos; foi aqui que lhe deram um nome, um sobrenome, e até um patronímico, porque a menina lembrava muito incertamente seu nome e sua primeira infância. Ela achava que seu pai a chamava de Olya, mas ela não tinha certeza disso e se calava, como anônima, como aquele sujeito noturno que havia morrido. Então deram-lhe um nome em honra de Moscou, patronímico em memória de Ivan - típico soldado russo do Exército Vermelho, morto no campo de batalha - e sobrenome como sinal da honradez de seu coração,* que ainda não havia sucedido em se tornar desonrado, ainda que fosse há muito tempo infeliz."

*Honra em russo é chest', daí o sobrenome de Moscou: Chestnova.

суббота, августа 08, 2009

Moscou Feliz (II/III)

"Seu pai morrera de tifo, e a menina, faminta e órfã, saíra de casa e nunca mais voltara. Sua alma tendo adormecido, não se lembrando nem de pessoas, nem do espaço, por alguns anos ela vagou e se alimentou pela pátria, como no deserto, até ter acordado no orfanato e na escola. Ela se sentava na carteira à janela, na cidade de Moscou. No bulevar as árvores já pararam de crescer, e delas, sem a força do vento, as folhas caíam e cobriam a terra que havia sido calada - no longo sono do futuro; era o fim do mês de setembro, daquele ano, em que todas as guerras acabaram, e o transporte público começou a ser reestabelecido."

четверг, августа 06, 2009

Moscou Feliz (I/III)

About a year ago, on a flight across the Atlantic, with not much to do, I decided to try to translate something by Andrei Platonov, one of my favorite writers. Except that most of what he wrote is being translated or has already been translated into English, and at any rate I was not interested in translating him into English, but rather into a somewhat more unusual language (for Russian authors, that is). So, here are the first two or so paragraphs of Platonov's novel Schastlivaia Moskva (published in English as Happy Moscow; the link offers some more information on the novel).

"Um sujeito sombrio, carregando uma tocha ardente, correu pela rua em uma triste noite do fim do outono. Uma garotinha, tendo acordado como resultado de um triste sonho, o viu da janela de sua casa. Depois ela ouviu o forte estampido de uma arma de fogo e um triste, pobre grito - provavelmente assassinaram o sujeito que estava fugindo com a tocha ardente. Logo se ouviam muitos tiros longínquos e os rumores do povo na prisão perto dali... A garota adormeceu e esqueceu tudo que viu depois, noutros dias: ela era jovem demais, e a memória e a mente da primeira infância engendraram sua vida posterior no seu corpo para sempre. Porém, até os anos finais, inesperada e tristemente, para ela o sujeito incógnito se levantaria e fugiria - sob a pálida luz da memória - e novamente morreria na escuridão do passado, no coração da criança crescida. Entre a fome e o sono, no momento do amor ou de alguma outra jovem alegria - subitamente de longe, nos recônditos de seu corpo novamente ecoaria o desesperado grito do morto, e a jovem mulher imediatamente mudaria sua vida - interromperia a dança, se estivesse dançando, mais auspiciosa e compenetradamente trabalharia, se estivesse labutando, cobriria com as mãos o seu rosto, se estivesse sozinha. Naquela odiosa noite do fim do outono começara a Revolução de Outubro - naquela cidade, onde morava naquela época Moscou Ivanovna Chestnova. "

(More to follow...)