суббота, апреля 07, 2007

Um Acidente de Carro (IV/IV)

As luzes dos carros que vinham em sentido contrário clareavam bruscamente o rosto de Marina. Marcelo observava, embevecido, como a beleza se manifestava nas mais diversas maneiras, fosse nos suaves contornos faciais, sob a penumbra da estrada vazia, fosse no brilho da sua pele branca. Ela estivera em silêncio por um longo tempo, até que, olhos fixos na estrada, suas palavras se superpuseram ao vento que soprava levemente pela fresta da janela:

“Eu não sei o que você está sentindo agora, e nem no que você vai estar pensando segunda-feira, mas você não deve ter esperanças.”

Marcelo ficou em silêncio. Pegou um cigarro, acendeu-o, abriu um pouco mais a janela, e, sentindo já algumas gotas de chuva no rosto, disse:

“Está começando a chover de novo.”

вторник, апреля 03, 2007

Um Acidente de Carro (III/IV)

O pai de Marcelo foi para o quarto do filho, e começou a arrumar as coisas dele. Não para que fossem jogadas fora, ou doadas, ou guardadas em algum recanto mais obscuro da casa. Ele começou a arrumar as coisas para que, quando Marcelo viesse, encontrasse seu quarto organizado. As roupas no armário, os tênis nas gavetas debaixo da cama, os CDs perto das caixas de som, os livros na estante. Prendeu novamente no quadro de cortiça algumas fotos que haviam caído atrás da mesa de estudos. Em uma delas, uma foto sua ao lado do filho e da ex-esposa. A fotografia havia sido feita alguns anos atrás, na formatura do segundo grau de Marcelo. Sua expressão era pensativa, sonhadora. Ele não olhava para a câmera, mas sim para algo além e atrás dela.

Ele acordou com os gritos de crianças brincando no gramado da casa ao lado. Levantou-se da cama do filho, onde havia adormecido, e abriu a janela. Duas crianças, um menino e uma menina, brincavam. Suas corridas, abraços e fugas subseqüentes assemelhavam-se a um balé sem música.

Ele fechou a janela, mas um fugaz raio de sol iluminou algo que atraiu sua atenção. Atrás da cama do filho, na parede oposta ao quadro de cortiça, uma foto jazia escondida: Marina na formatura do segundo grau.

воскресенье, апреля 01, 2007

Um Acidente de Carro (II/IV)

Seus olhos se iluminavam sob cores diversas, ao ritmo da música. As pontas em brasa dos cigarros faziam as vezes de luzes de orientação. A fumaça subia, dilatando-se à medida que era perfurada pelos focos de luz. No ambiente abafado, corpos em movimento se amontoavam, ávidos por contato; músculos enrijecidos se opunham a mãos delicadas, digladiando-se mortalmente em busca de um beijo. Marina dançava sensualmente, deixando-se levar pelo álcool e pelo ar inebriante da boate. Marcelo, atrás da cortina de fumaça de suas baforadas, observava.

Ele soltou o cigarro, apagou-o com o sapato, e caminhou lentamente na direção de Marina. Ele murmurou algo no ouvido dela. Ela não conseguiu ouvir o que ele disse.