среда, марта 28, 2007

Um Acidente de Carro (I/IV)

I wrote this sometime in the first half of this decade. It results from an adolescent fascination with the world of nightclubs, caused to a great extent by the fact that I was always a foreigner in that world. This is evidenced, e.g., by the fact that the protagonist is a smoker. The attentive reader will also perceive echoes of The Smiths's masterpiece, here deprived, alas, of the wit and irony of Morrissey's lyrics.


Era de madrugada. Na avenida vazia, os postes vertiam sua luz alaranjada sobre um negro carro solitário, que cambaleava de um lado para o outro da pista. Já não chovia – podia-se ver até o halo lunar atrás da cobertura do céu – mas a água formara uma fina película sobre o asfalto. Os pneus singravam a película, deixando para trás dois filetes cada vez mais tênues, e uma nuvem úmida de vapor. Os faróis criavam fugazes áreas claras e sombras espectrais entre as árvores.


No asséptico e lúgubre interior do carro, uma adolescente ao volante, com um rapaz de carona. O casal recebia a luz intermitente dos postes da rua, em um ritmo monótono. Ele acendeu um cigarro, e a cada sorvida seu rosto se iluminava com o fumo incandescente. A fumaça se dispersava lentamente pelo carro, buscando a fresta na janela. Ele observava a moça, acariciando o rosto dela de vez em quando. Uma lágrima descia discretamente pela face dela.


Em um cruzamento, um veículo saltou na frente do carro, tomando a direita. O carro desviou bruscamente para a esquerda, planando de lado, dirigindo-se descontroladamente de encontro a uma árvore. A carroceria foi cortada em duas metades pela árvore.


O pára-brisas se manteve coeso, apesar de muito rachado. Os vidros laterais se estilhaçaram, lançando dezenas de minúsculas lâminas nos corpos dos ocupantes.


Os cachorros das casas da vizinhança latiam, alarmados. Mas não foi seu alarido o que acordou o rapaz.


O rapaz acordou com luzes brilhando no seu rosto. As luzes vermelhas das ambulâncias, dos carros de bombeiros e dos carros de polícia só tornavam mais rubro o sangue que impregnava a cena. O rapaz olhou para o lado, com o único olho que ainda via alguma coisa: o rosto dela estava sereno. A lágrima se dissolvera no sangue que escorria, esquecido sob as luzes vermelhas. Um esgar quase imperceptível no canto dos lábios esbranquiçados, e mais nada. Os giroscópios dos veículos, piscando em ritmos diferentes, apenas tornavam variável a intensidade do vermelho que a iluminava. Mas não havia como trazer de volta o rubor à lisa pele dela.