четверг, февраля 27, 2003

Álcool (II/II)

...ou se por causa dela.

A música era estranha. Uns sambas até legais, mas completamente desconhecidos para Black. Ele perguntou quem era a mulher cantando um dos sambas. Carol observou, meio estupefata, que não havia nenhuma voz de mulher. Será que era a voz dela?
Não poderia ser. Naquele momento, ela já deveria estar beijando o outro cara. Os mesmos lábios que – supostamente, já que Black tendia a acreditar cada vez mais que aquilo fora uma alucinação – o haviam beijado. As mesmas mãos que o haviam acariciado com um carinho que ele nunca recebera antes, agora acariciavam o outro. “Como ela pôde passar incólume por aquela noite? Qual o segredo?”
Para ele, que só havia recebido sorrisos corteses dela havia quase dois meses, a noite havia começado promissora. Ela o observava com um olhar diferente quando ele, que andava na frente dela, um pouco para o lado, subitamente olhou para trás, para o Bloco dos Seqüelados que avançava pela rua. E ele a viu. Black não conseguiria descrever o que vira naquele olhar. Ela parecia, talvez, estar propensa a – eventualmente – vir a se interessar por ele. Ou era a Kovak Ice que já lhe subia à cabeça, por mais fraca que fosse. Sabiamente, ele afastou aquela ilusão da mente.

Ele havia vestido uma camisa preta, de seda. Sua auto-estima parecera haver melhorado, depois de muito tempo. Ele se achara atraente com aquela camisa. E aquela calça jeans (a que ele havia usado na suposta noite com ela) era sua predileta, e combinara com a camisa.
Black se despiu lentamente, porque estava embriagado, como também para ver se nenhuma mulher (em uma pensão só de homens) se interessaria em sentir a diáfana, delicada, etérea textura daquela camisa. Ela voltou ao cabide, virgem.
Ele se olhou bem fundo nos próprios olhos, desejando ver no espelho o repouso que nunca encontraria em si mesmo, como bem o sabia. Era hora de voltar para a cama. No dia seguinte tomaria um café, café é bom para a ressaca. “É bom e é ruim, porque as sinapses nervosas ficam doidas: o álcool é depressor, e a cafeína é estimulante”, seu grande pequeno amigo diria nem três dias depois. De qualquer jeito, Black não queria pensar nela, ele sabia que recorrer a ela seria inútil, inútil e penoso, mas enquanto isso ele sonhava com a noite, passada ou futura (que diferença faz?), em que os lábios e as mãos dela acariciariam o rosto, o pescoço dele, em que ele se veria nos braços dela, em que o perfume dos cabelos dela iria inebriá-lo mais do que uma Kovak Ice e dois (ou três?) gummys.

среда, февраля 26, 2003

Álcool (I/II)

Agradeço a A. P., pela lembrança etílica

“Un soir l’âme du vin chantait dans les bouteilles:
‘Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Um chant plein de lumière et de fraternité!’”
(Charles Baudelaire, L’âme du vin)



Black se olhou no espelho. Ele nunca se sentira tão mal. Não sabia se por causa da Kovak Ice e dos dois (ou três) gummys que tinha bebido...


Gummy. Ninguém nunca lhe explicara muito bem como aquilo era feito. Encontra-se gummy dos mais diversos sabores: na Festa do IACS, Black tomou um de limão (ou pelo menos ele cria que fosse de limão), e um de uva (“muito bom”). Ou ele repetiu a dose de um dos dois?
Cada gummy custava um real. Era guardado em garrafões de água mineral, derramado em copos plásticos. O elemento “uva” ou “limão” era representado por suco em pó. O elemento “álcool” consistia de vodca ou Contini, mas Black sempre suspeitara que fosse álcool de cozinha. Antes de a venda do álcool líquido ter sido proibida, e só a forma em gel ter sido permitida. Como que eles fizeram gummy depois disso?

...ou se por causa da indiferença que sentia por tudo, ainda mais depois dos dois “tocos” que havia tomado...

Um foi da Carol, de Biblioteconomia e Documentação, amiga de uma amiga. “Nós estudamos outras coisas também”, foi o que ela disse depois da pergunta insossa dele. Toda a conversa foi bem insossa. Mas ela tinha um olhar sugestivo, meio angelical, meio intrigante, meio blasé. E o cabelo curto emoldurava maravilhosamente o rosto dela. Porém, ela fumava. Black viria a dar graças a deus por nada ter acontecido, mais tarde, quando se lembrasse desse detalhe. L&M e Free. Ele não soube o que comentar a respeito daquilo. Ele, que tinha uma razoável capacidade de preencher silêncios constrangedores com comentários inúteis. Nunca fumara, e aquela era a primeira vez em que se embebedava mesmo, de verdade.
Ela achou estranho que ele não estivesse agindo com timidez. Ele dançou muito mal com ela, dois ou três passos, o suficiente para ela ver que Black não sabia dançar (ele pisara no pé dela). Ele ficava se mexendo, “dançando” descontroladamente, girando a cabeça e lançando os olhos para dentro e para fora das órbitas, para aproveitar melhor os efeitos do álcool. “Esta é a parte boa.” Cada olhar é como que fixado no tempo, e o tempo é fragmentado em inúmeros pedaços irregulares. Os momentos permanecem na mente depois de já passados. Enquanto isso, ele ia falando coisas inúteis, até que lhe ocorreu de perguntar o nome dela. Black nunca consegue se lembrar do nome das pessoas da primeira vez. Ele nunca presta atenção. Agora, ele se lembra do nome dela. Não esquece mais. Agora, que ela se foi e não vai voltar, felizmente, ele se lembra do seu nome.
“Deve ter sido por isso que ela não ficou comigo.” Ninguém gosta de ter seu nome esquecido.
E aí ele estava sambando (ele, Black, que não dança nem valsa, sambando) quando viu a Clarice, que já tinha evitado ficar com ele em outra noite, aparentemente porque ela não fica com ninguém na primeira noite em que se conhecem, e também porque havia batido meia-noite e ela ia com suas amigas para a praça.
Os postes de luz (grandes globos iluminados) haviam sido cobertos com papel celofane colorido. Uma luz azul, diáfana, irreal, cobria Clarice. Ela o viu, e também o reconheceu. Ele foi lá. Ela explicou que naquela noite não “rolava”. Ele queria pelo menos conhecê-la melhor, e partiu para um interrogatório insosso. Ele disse que ela poderia querer conhecê-lo outra vez, outro dia.
– Esse dia será provavelmente nunca – ela disse.
– Nunca?
– Nunca – seus olhos miravam o infinito. Ela não tinha coragem de olhar para ele. Ou não queria rir.
– Então está bom.
Ele a cumprimentou e voltou para a rodinha onde seus amigos dançavam. Black continuou “sambando”, mas se deu conta que aquilo estava ridículo. M. apareceu, sem sua amiga inseparável. Ele se despediu de todos (“A cama me espera”), e partiu. Era meia-noite e quarenta. A noite (em público, pelo menos) acabava cedo para Black.
Ele cambaleou apressado para a pensão onde ficava em Nictheroy. O pensamento que ela estava ficando com alguém (outro alguém) o liberou da pressão de ter que ficar com ela outra vez. Assim, não o assaltaria a suspeita absurda de que ela havia esperado que ele lhe propusesse algo. Ele se sentiu livre para amá-la com mais liberdade. Sem ter consumado novamente aquele amor, talvez ele tivesse percebido que nunca viria a consumá-lo novamente. Se é que houvera uma vez anterior.
Mas a verdade é que Black tomara dois “tocos” e ele não se importava com isso (apesar de aquele “Nunca” categórico ter-lhe pesado bastante), e sim com o que os seus colegas da faculdade pensariam de tudo aquilo. E com o que ela pensaria da sua embriaguez. A última coisa que ele desejava era que ela sentisse pena ou desprezo.

O lado ruim do álcool: cada momento parece ser interminável, e a situação na qual o alcoolizado se encontra parece ser permanente, eternamente inescapável. Black queria dormir logo, mas o álcool o impedia. Ele se levantou da cama, sentou-se no sofá, inclinou a cabeça para a frente e tentou controlar o louco fluxo de pensamentos que lhe assomavam à mente. “Eu não quero ouvir uma só palavra sobre Tristão e Isolda; o amor deles não me interessa”; “Sim, ela está ficando com outro cara, e é melhor do que perder seu tempo comigo”; “Eu só quero dormir, por favor”; “Dane-se a opinião deles sobre o meu vídeo; eu vou expor a minha alma amanhã à tarde – ou hoje, sei lá – mas ela não vai entender que aquilo diz respeito a ela”; “Por favor, alguém faça isto parar. Eu só quero dormir.”
Ele comeu uma maçã. Ela estava deliciosa, a melhor maçã que ele comera na vida. Porém ele a vomitou, como um doente que recusa o remédio. Enquanto isso, espera-se, músicas melhores tocavam no IACS e ela ficava com outro cara.