понедельник, марта 31, 2003

Saudações ao Mundo

These are fragments of a story I once wrote. I'm especially fond of Pedro, the narrator's somewhat Dostoevskyan double (before I even knew Dostoevsky!); while it is evident that some of his dialogues with the narrator are made up, I should say that some of them are not.

E depois eu ainda tive que ouvir a pergunta inocente mas impertinente do Pedro:
- Você não tava ficando com ela?
Ao que eu fui obrigado a explicar:
- Eu fiquei com ela, mas ainda não estou ficando.
- Ela é bonitinha. Você devia ficar com ela de novo.
(Como se eu não soubesse.)

Vim caminhando de volta para casa. A cidade dormia, ou talvez já estivesse morta. Não se via ninguém pelas avenidas ultra-iluminadas, pelos bares pustulentos ou nos carros fugidios. É véspera de Carnaval, mas ninguém festeja nada. Talvez fosse pela quase-ausência da Lua no céu. Ela não era mais do que uma tímida gota branca na imensidão escura. Só à Lua se permitiu brilhar esta noite, porém com restrições. Talvez seja esta uma definição da Melancolia: uma Lua Cheia sufocada pela névoa, impedida de brilhar desde a sua órbita por uma estúpida peculiaridade do tempo local, uma breve frente fria. Brilho inútil. Falta de timing.
Antes de chegar em casa, me dei conta que não teria pão para comer quando acordasse. Não que eu seja um fanático por pão, mas é que a minha mãe, que mora a 200 quilômetros de mim, me cobra as notas fiscais de tudo que eu compro, para saber se estou me alimentando bem, e também para tentar evitar que eu gaste o dinheiro com coisas perigosas, como álcool, drogas, mate, ou CDs. Se eu não desse a nota fiscal desse pão, minha mãe certamente descobriria que eu só teria tomado leite na manhã que se aproxima.
Mas, onde achar uma padaria aberta às 3 da manhã? O jeito foi procurar um supermercado que ficasse aberto durante a noite toda. Não encontrei nenhum nas cercanias. Acabei entrando em uma loja de conveniência de um posto de gasolina. Fora o vendedor, só estava lá o Pedro, por coincidência. Ele não parecia estar muito bem. De fato, parecia estar bêbado. Cumprimentei-o rapidamente, e dei uma volta pela loja, à procura de pão. Não o encontrei.
- Com licença, você não tem pão aqui? – perguntei ao vendedor.
- Já era para ter chegado uma nova remessa. De madrugada, o pão acaba cedo demais.
- Por causa dos vampiros? – Pedro perguntou, postando-se ao meu lado, com uma garrafa de
cerveja na mão.
O vendedor não se dignou a responder.
- Se você precisa muito do pão – ele me disse – você podia passar ali naquele convento, e comprar
diretamente com as noviças, que fazem o pão que eu vendo aqui. Aí você também podia pedir para trazerem logo a nova fornada.
- Elas dão nota fiscal da compra?
- Acho que, se você pedir um recibo, elas lhe dão.
Na falta de algo melhor para fazer, e devido à premente necessidade de comprar pão, dirigi-me para o velho convento. Era uma construção de três andares, mais sótão e porão, dessas casas gigantescas que eram edificadas na época do Império. Entre a calçada e a porta do convento, havia uma grade bastante alta e um jardinzinho. Transpus o jardim e toquei a campainha, talvez um pouco apreensivo por estar perturbando o sono de alguém em plena madrugada. Mas, ora bolas, as noviças não fazem pão para lojas de conveniência? Elas devem estar acordadas, no fim das contas. Pelo menos uma das irmãs estava. Não uma noviça, mas uma velha e ressequida freira. Para atender a porta tão prontamente, ela já devia estar a postos, talvez até observando de alguma janela. Se ela pegasse no sono, talvez não acordasse nunca mais. Devia ser por isso que não dormia.
Ela abriu uma fresta da porta, o suficiente para espetar sua cabeça para fora e me fitar com olhos lívidos.
- Boa noite, eu gostaria de comprar pão.
- Entre, por favor, e siga-me.
A pequenina freira foi-me guiando com passos rápidos por um labirinto de corredores escuros e estreitas escadas em caracol, até o porão. Lá, ela me indicou o resto do caminho até a fornalha, onde encontraria o pão, e sumiu por alguma porta. Caminhei até onde a irmã havia indicado. Uma porta estava entreaberta, deixando passar pela fresta uma réstia de luz, talvez do mesmo estranho luar. “No porão?”, pensei comigo mesmo.
- Pão? Desculpe, nós não temos – respondeu o vendedor.
- Ih, cara, por que você vai querer pão a uma hora dessas? – Pedro me perguntou.
- E cicuta, vocês têm? – já não tinha a menor idéia do que estava fazendo ou falando, ou do que estava acontecendo.
Pedro, já lúcido, se limitou a comentar:
- Morrer como um filósofo grego: eis o sonho de todo intelectualzinho de merda.
- Não é para me matar, não. É só para pôr no mate – eu disse, sem me dar conta que quem beberia o mate seria eu mesmo.
Saí da loja de conveniência e me dirigi para casa. Nuvens negras já haviam coberto completamente o céu desde que saíra da festa. Um vento forte começou a agitar as árvores, zunindo pelas ruas e avenidas vazias. Olhei para cima: gotículas de chuva começaram a cair, amarelando-se lividamente ao passar sob o facho dos postes de luz. Comecei a andar mais rápido. As gotículas tornaram-se mais pesadas. Escondi-me debaixo de uma marquise. Por ironia, na frente de uma padaria.
Depois de alguns minutos a chuva acabou, deixando uma atmosfera úmida. Pequenos regatos corriam nas beiras das ruas e nas calhas das casas antigas. Gotas de orvalho se precipitavam gravemente das folhas das árvores. No céu viam-se todos os matizes do azul-escuro, desde as nuvens negras que fugiam em direção ao continente, até o límpido azul perolado, no esboço de nascer do sol sobre o mar. No meio do caminho entre as nuvens e o sol, algumas estrelas se faziam presentes, pequenos brilhantes sobre um fundo cor de anil. Sua presença era efêmera: logo seriam engolidas pela manhã iminente.
Talvez seja o destino de todos nós: um breve momento de brilho, de êxtase, e depois o ocaso. Ou talvez eu só esteja escrevendo como um “intelectualzinho de merda”.
Retornei ao ponto de ônibus: não sabia para onde ir. Talvez de volta para casa, o que eu tentava fazer desde que ela agitara seus braços e sua cabeça negativamente, na festa. Eu tentava voltar para casa, mas inconscientemente evitava ao máximo que as estrelas fossem engolidas.
  
Sentei-me, à espera dela. Abri o livro de poesia no fim, e comecei a lê-lo de trás para a frente, como fazia quando queria avançar para meus poemas prediletos. Havia devorado esse livro durante as duas semanas passadas, durante uma viagem. Podia estar a dois mil quilômetros de casa, mas toda vez em que abria o livro retornava àquela noite, que ia lentamente se desdobrando em múltiplas noites. Aquela noite havia sido impressa nas páginas do livro; cada poema revelava, não uma nova faceta do poeta, nem de mim mesmo, mas daquela mesma noite.
Eu esperei. Sabia que ela se atrasaria. Enquanto ia lendo os poemas, dei-me conta que ela somente apareceria quando eu lesse algum poema relacionado à Lua. A Lua nos acompanhara naquela noite. Li o primeiro dos poemas, mas ela não apareceu. Li o segundo, mas tudo continuava imóvel, como que petrificado, à espera dela. Li mais alguns e, já não lembro quando, ela surgiu. Linda. Como sempre. Como naquela noite.

- Por que as coisas tomaram o rumo que tomaram? Que força sobre-humana, que energia cósmica é essa, que guia nossos destinos, o meu e o dela, por caminhos divergentes?
- Todos sofremos de um problema crônico: falta de timing. Como a Lua – Pedro disse.
- É verdade. Vivemos em sincronia com a Lua. Nosso tempo é diferente do tempo do mundo. Só uma vez eu fiz a coisa certa na hora ideal. Apenas mais uma vez na vida, eu quero fazer a coisa certa no momento certo.
- Essa mulher está lhe fazendo mal.

четверг, февраля 27, 2003

Álcool (II/II)

...ou se por causa dela.

A música era estranha. Uns sambas até legais, mas completamente desconhecidos para Black. Ele perguntou quem era a mulher cantando um dos sambas. Carol observou, meio estupefata, que não havia nenhuma voz de mulher. Será que era a voz dela?
Não poderia ser. Naquele momento, ela já deveria estar beijando o outro cara. Os mesmos lábios que – supostamente, já que Black tendia a acreditar cada vez mais que aquilo fora uma alucinação – o haviam beijado. As mesmas mãos que o haviam acariciado com um carinho que ele nunca recebera antes, agora acariciavam o outro. “Como ela pôde passar incólume por aquela noite? Qual o segredo?”
Para ele, que só havia recebido sorrisos corteses dela havia quase dois meses, a noite havia começado promissora. Ela o observava com um olhar diferente quando ele, que andava na frente dela, um pouco para o lado, subitamente olhou para trás, para o Bloco dos Seqüelados que avançava pela rua. E ele a viu. Black não conseguiria descrever o que vira naquele olhar. Ela parecia, talvez, estar propensa a – eventualmente – vir a se interessar por ele. Ou era a Kovak Ice que já lhe subia à cabeça, por mais fraca que fosse. Sabiamente, ele afastou aquela ilusão da mente.

Ele havia vestido uma camisa preta, de seda. Sua auto-estima parecera haver melhorado, depois de muito tempo. Ele se achara atraente com aquela camisa. E aquela calça jeans (a que ele havia usado na suposta noite com ela) era sua predileta, e combinara com a camisa.
Black se despiu lentamente, porque estava embriagado, como também para ver se nenhuma mulher (em uma pensão só de homens) se interessaria em sentir a diáfana, delicada, etérea textura daquela camisa. Ela voltou ao cabide, virgem.
Ele se olhou bem fundo nos próprios olhos, desejando ver no espelho o repouso que nunca encontraria em si mesmo, como bem o sabia. Era hora de voltar para a cama. No dia seguinte tomaria um café, café é bom para a ressaca. “É bom e é ruim, porque as sinapses nervosas ficam doidas: o álcool é depressor, e a cafeína é estimulante”, seu grande pequeno amigo diria nem três dias depois. De qualquer jeito, Black não queria pensar nela, ele sabia que recorrer a ela seria inútil, inútil e penoso, mas enquanto isso ele sonhava com a noite, passada ou futura (que diferença faz?), em que os lábios e as mãos dela acariciariam o rosto, o pescoço dele, em que ele se veria nos braços dela, em que o perfume dos cabelos dela iria inebriá-lo mais do que uma Kovak Ice e dois (ou três?) gummys.

среда, февраля 26, 2003

Álcool (I/II)

Agradeço a A. P., pela lembrança etílica

“Un soir l’âme du vin chantait dans les bouteilles:
‘Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Um chant plein de lumière et de fraternité!’”
(Charles Baudelaire, L’âme du vin)



Black se olhou no espelho. Ele nunca se sentira tão mal. Não sabia se por causa da Kovak Ice e dos dois (ou três) gummys que tinha bebido...


Gummy. Ninguém nunca lhe explicara muito bem como aquilo era feito. Encontra-se gummy dos mais diversos sabores: na Festa do IACS, Black tomou um de limão (ou pelo menos ele cria que fosse de limão), e um de uva (“muito bom”). Ou ele repetiu a dose de um dos dois?
Cada gummy custava um real. Era guardado em garrafões de água mineral, derramado em copos plásticos. O elemento “uva” ou “limão” era representado por suco em pó. O elemento “álcool” consistia de vodca ou Contini, mas Black sempre suspeitara que fosse álcool de cozinha. Antes de a venda do álcool líquido ter sido proibida, e só a forma em gel ter sido permitida. Como que eles fizeram gummy depois disso?

...ou se por causa da indiferença que sentia por tudo, ainda mais depois dos dois “tocos” que havia tomado...

Um foi da Carol, de Biblioteconomia e Documentação, amiga de uma amiga. “Nós estudamos outras coisas também”, foi o que ela disse depois da pergunta insossa dele. Toda a conversa foi bem insossa. Mas ela tinha um olhar sugestivo, meio angelical, meio intrigante, meio blasé. E o cabelo curto emoldurava maravilhosamente o rosto dela. Porém, ela fumava. Black viria a dar graças a deus por nada ter acontecido, mais tarde, quando se lembrasse desse detalhe. L&M e Free. Ele não soube o que comentar a respeito daquilo. Ele, que tinha uma razoável capacidade de preencher silêncios constrangedores com comentários inúteis. Nunca fumara, e aquela era a primeira vez em que se embebedava mesmo, de verdade.
Ela achou estranho que ele não estivesse agindo com timidez. Ele dançou muito mal com ela, dois ou três passos, o suficiente para ela ver que Black não sabia dançar (ele pisara no pé dela). Ele ficava se mexendo, “dançando” descontroladamente, girando a cabeça e lançando os olhos para dentro e para fora das órbitas, para aproveitar melhor os efeitos do álcool. “Esta é a parte boa.” Cada olhar é como que fixado no tempo, e o tempo é fragmentado em inúmeros pedaços irregulares. Os momentos permanecem na mente depois de já passados. Enquanto isso, ele ia falando coisas inúteis, até que lhe ocorreu de perguntar o nome dela. Black nunca consegue se lembrar do nome das pessoas da primeira vez. Ele nunca presta atenção. Agora, ele se lembra do nome dela. Não esquece mais. Agora, que ela se foi e não vai voltar, felizmente, ele se lembra do seu nome.
“Deve ter sido por isso que ela não ficou comigo.” Ninguém gosta de ter seu nome esquecido.
E aí ele estava sambando (ele, Black, que não dança nem valsa, sambando) quando viu a Clarice, que já tinha evitado ficar com ele em outra noite, aparentemente porque ela não fica com ninguém na primeira noite em que se conhecem, e também porque havia batido meia-noite e ela ia com suas amigas para a praça.
Os postes de luz (grandes globos iluminados) haviam sido cobertos com papel celofane colorido. Uma luz azul, diáfana, irreal, cobria Clarice. Ela o viu, e também o reconheceu. Ele foi lá. Ela explicou que naquela noite não “rolava”. Ele queria pelo menos conhecê-la melhor, e partiu para um interrogatório insosso. Ele disse que ela poderia querer conhecê-lo outra vez, outro dia.
– Esse dia será provavelmente nunca – ela disse.
– Nunca?
– Nunca – seus olhos miravam o infinito. Ela não tinha coragem de olhar para ele. Ou não queria rir.
– Então está bom.
Ele a cumprimentou e voltou para a rodinha onde seus amigos dançavam. Black continuou “sambando”, mas se deu conta que aquilo estava ridículo. M. apareceu, sem sua amiga inseparável. Ele se despediu de todos (“A cama me espera”), e partiu. Era meia-noite e quarenta. A noite (em público, pelo menos) acabava cedo para Black.
Ele cambaleou apressado para a pensão onde ficava em Nictheroy. O pensamento que ela estava ficando com alguém (outro alguém) o liberou da pressão de ter que ficar com ela outra vez. Assim, não o assaltaria a suspeita absurda de que ela havia esperado que ele lhe propusesse algo. Ele se sentiu livre para amá-la com mais liberdade. Sem ter consumado novamente aquele amor, talvez ele tivesse percebido que nunca viria a consumá-lo novamente. Se é que houvera uma vez anterior.
Mas a verdade é que Black tomara dois “tocos” e ele não se importava com isso (apesar de aquele “Nunca” categórico ter-lhe pesado bastante), e sim com o que os seus colegas da faculdade pensariam de tudo aquilo. E com o que ela pensaria da sua embriaguez. A última coisa que ele desejava era que ela sentisse pena ou desprezo.

O lado ruim do álcool: cada momento parece ser interminável, e a situação na qual o alcoolizado se encontra parece ser permanente, eternamente inescapável. Black queria dormir logo, mas o álcool o impedia. Ele se levantou da cama, sentou-se no sofá, inclinou a cabeça para a frente e tentou controlar o louco fluxo de pensamentos que lhe assomavam à mente. “Eu não quero ouvir uma só palavra sobre Tristão e Isolda; o amor deles não me interessa”; “Sim, ela está ficando com outro cara, e é melhor do que perder seu tempo comigo”; “Eu só quero dormir, por favor”; “Dane-se a opinião deles sobre o meu vídeo; eu vou expor a minha alma amanhã à tarde – ou hoje, sei lá – mas ela não vai entender que aquilo diz respeito a ela”; “Por favor, alguém faça isto parar. Eu só quero dormir.”
Ele comeu uma maçã. Ela estava deliciosa, a melhor maçã que ele comera na vida. Porém ele a vomitou, como um doente que recusa o remédio. Enquanto isso, espera-se, músicas melhores tocavam no IACS e ela ficava com outro cara.