четверг, декабря 19, 2002

Memória Eterna

Uma noite algo impressionante e memorável lhe ocorreu, e o dia seguinte passou como um transe, acompanhado da doce memória daquela noite. Depois veio uma viagem, e a única constante daquela viagem foi, mais uma vez, aquela memória, que trazia consigo um misto de conforto e apreensão com o futuro.
Não se sabia quando tudo se acabaria, e o que restaria daquela memória. Mais tarde, depois de mais viagens, mais apreensão, mais júbilo e mais sofrimento, tudo chegou ao fim, seguindo aquele destino que só é evidente em retrospecto. E a memória, talvez, tenha se esquecido - como era de se esperar. 

среда, октября 09, 2002

Liebe-Tragik

This text was written originally for some writing contest of short stories set in Nictheroy, hence the rather gratuitous reference to the city in this story. The 2011 revision consisted solely of cutting as much material as possible from the text, yielding a rather cryptic tale, which is nonetheless much less painful to read than the original story, aptly described by a friend of mine as having been written by a "drunken Proust."

Alguns anos atrás, folheando um pesado volume na biblioteca de meu avô, encontrei, entre as folhas amareladas do códice, um envelope envelhecido pelo tempo. Para meu espanto, ele estava ainda selado com um brasão prateado. O carimbo dos correios indicava que a carta havia sido enviada de Veneza, no dia 13 de fevereiro de 1883. Nada estava escrito no envelope, nem o nome do remetente, nem o nome ou endereço do destinatário. Os leitores (se algum houver) com certeza acharão curioso que a carta termine abruptamente, sem a assinatura do autor e, no entanto, tenha sido selada e remetida. Isso permanece inexplicado.

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Em 1883, aos 18 anos, viajei a Veneza. No canal, uma gôndola flutuava à deriva. Nela, eu adormecia, entorpecido pela Lua e pelo Vinho.

Fui acordado por uma ríspida voz me intimando, em um horripilantemente gutural italiano, a sair da frente com meu barco. Quando percebi quem esbravejava os impropérios (era ***, o famoso compositor), fiz uma exagerada reverência e mil pedidos de desculpa, usando meus parcos recursos de alemão. *** aceitou as desculpas e, ao perceber meu apreço por sua obra, em uma breve conversa, convidou-me para visitá-lo no dia seguinte à tarde. Prometi comparecer.

Cheguei um pouco antes do horário para a visita ao compositor. Fui levado a um portentoso salão, ornado de tecidos finos e estátuas de mármore, e fiquei a esperar por Herr ***, que estava atrás de uma das inúmeras portas, trabalhando no escritório. O tempo se passou. Impaciente, olhei pelo buraco da fechadura, e o vi debruçado sobre os papéis que escrevia. Era uma saleta simples mas elegante. Um grande retrato do compositor encimava a mesa, cheia de papéis espalhados nervosamente.

Entrei. Inclinei-me ao lado de ***, sentado à mesa, e tentei acordá-lo. Seu corpo já esfriara. Na sua mão, a pena ainda repousava. No papel, uma frase incompleta, terminada abruptamente na palavra Liebe-Tragik.

Deixei o escritório, e pedi para ser conduzido à saída. Antes de passar pelos umbrais da porta principal, pedi à empregada que transmitisse à viúva os meus pêsames. Embarquei no primeiro navio de volta ao Brasil, e em algumas semanas estava na casa dos meus pais em Nictheroy.

Quase um ano se passara. Na Baía, pequenos barquinhos vogavam sem rumo, pontos luminosos se dirigindo para o horizonte, reflexos n’água de estrelas ausentes do céu. Era noite. Saí para caminhar. Todos haviam voltado para suas casas, ébrios dos festejos. Os barcos haviam sumido do mar. Só um pequenino barco a vela se arrastava para a praia, conduzido pela brisa suave. O barco se abandonou perto de onde eu estava. Alguém estava estendido no piso do barco. Todas as lembranças de meus dias em Veneza assomaram à minha mente.

Dias e noites se passaram. Melancólico, passava horas isolado em meu quarto. Minha mãe, preocupada com a minha saúde, me mandou para Petrópolis.

Petrópolis aliviou-me de meus sentimentos. Gostava de caminhar, à noite, por suas ruas ermas. A neblina auxiliava a introspecção. A sós com meus pensamentos, pude concluir que tudo que acontecera fora uma absurda ilusão.

Nova York, Petrópolis, IX-X/MMII; New Haven, VI/MMXI